terça-feira, 17 de abril de 2012

Roteiro de Aula - Capitães de Areia

"Capitães de Areia" começa com uma série de relatos jornalísticos sobre supostos crimes cometidos pela gangue dos garotos de rua. Quem leu a obra até o final sabe que a intertextualidade com o gênero notícia está presente em momentos cruciais do enredo. Tendo em vista esta questão e buscando aproximar a realidade dos Capitães com a de nossos alunos, por que não propor uma atividade com jornais recentes?

Eu selecionei 4 matérias sobre garotos e garotas de rua de veículos distintos. Assim, é possível trabalhar a distinta abordagem de cada um sobre o tema. Os termos grifados são expressões que marcam a posição de cada meio de comunicação sobre os fatos - deste modo, uma atividade possível é indagar aos alunos por que o jornal X escolhe a expressão "vândalos" e o jornal Y escolhe o termo "meninos", por exemplo. Além de aprenderem mais sobre o livro, os estudantes entenderão muito melhor como funcionam as tramoias linguísticas dos meios de comunicação.

Gangue de crianças volta a atacar em São Paulo

Formado por meninas e, desta vez, também por meninos, o grupo continua a promover arrastões na região da Vila Mariana

Uma gangue formada por meninas voltou a atacar na região da Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo. Depois de quase um mês sem perturbar os moradores e comerciantes do bairro, as garotas voltaram a protagonizar arrastões em lojas e na rua, atacando pedestres e motoristas. Nos últimos 11 dias, cinco ocorrências envolvendo meninas e, desta vez, também meninos, com idades entre 9 e 15 anos foram registradas pela polícia.
Às 11 horas da última sexta-feira, quatro garotos e uma menina tentaram assaltar os motoristas num semáforo da Avenida Noé de Azevedo, sem sucesso. O grupo foi preso por policiais militares que faziam a patrulha na região e encaminhado ao Conselho Tutelar da Vila Mariana.
A garota, R.P.A., de 14 anos, envolveu-se em pelo menos outras duas ocorrências, em agosto e setembro. Em 22 de setembro, por volta das 17h30, os policiais flagraram R.P.A. e dois meninos atacando moradores na esquina da Avenida Noé de Azevedo com a Rua Dona Júlia, na Vila Mariana. Na ocasião, a menina foi conduzida ao Conselho Tutelar. Depois, para um abrigo. Mais tarde, voltou às ruas.
C.J.G.S., de 11 anos, é outra integrante da "gangue de meninas da Vila Mariana", como o grupo ficou conhecido depois de promover inúmeros arrastões na região. Em 29 de setembro, por volta das 11h40, C.J.G.S. foi presa perto do Viaduto Santa Generosa depois de, na companhia de outros adolescentes, tentar furtar pedestres. Como nada foi roubado, a menina foi levada para o Conselho Tutelar. Os comparsas adolescentes conseguiram fugir. Dois dias depois, os mesmos policiais flagraram a mesma menina tentando roubar o relógio de uma mulher no mesmo viaduto. Mais uma vez, C.J.G.S. foi parar no Conselho Tutelar.
Solução Às 10 horas do último domingo, 2 de outubro, Rosélia Aparecida Alves da Silva, funcionária do quiosque Vitta Pane no Terminal Vila Mariana, foi surpreendida por seis meninos e uma menina. "Eles roubaram bolos, lanches e sucos e me ameaçaram", conta. "Quando foram embora, jogaram o que estava no balcão em mim". Rosélia não registrou a ocorrência. Segundo o capitão Flávio Baptista, comandante do 12º Batalhão da Polícia Militar, o policiamento foi reforçado na Rua Domingos de Morais e nas imediações das estações do metrô.
"Graças ao reforço foi possível fazer mais flagrantes e evitar inúmeros outros", afirma Baptista. "Porém, por causa de limitações legais, não cabe a nós a resolução desse problema". A Secretaria Municipal de Assistência Social informou que apenas um caso envolvendo a gangue da Vila Mariana foi registrado pela pasta. Acelino Marques, conselheiro tutelar da Vila Mariana, disse que, neste mês, recebeu duas crianças envolvidas em furtos. "Como os menores moram em Cidade Tiradentes, na Zona Leste, os casos foram encaminhados para lá", diz Marques. "Nós mesmos os levamos de van".
(Veja – 05/10/11)


‘Gangue das meninas’ leva pânico à elite raivosa

Arrastões promovidos por garotas em SP causam revolta em quem (convenientemente) se esquece dos crimes também cometidos pelos filhos da classe média. Por Matheus Pichonelli.

(...) Vejo uma São Paulo em polvorosa por conta das ações de meninas que se organizam para cometer pequenos furtos nas redondezas da Vila Mariana – a “denúncia” ecoou por meio de reportagem dominical da tevê num fim de semana, e foi logo tratada como mais uma questão de segurança pública a assolar a vida da pobre e sofrida classe média que só se preocupa em nascer e morrer sem o sobressalto de ver levado o aparelho de som do carro que equipou a duras penas.


As reportagens que se seguiram por diversos veículos sobre “a gangue das meninas”, que promoveria arrastões pela capital, funcionaram como nitroglicerina pura para a ala raivosa da classe média que já não sabia o que fazer com os seus pedidos de redução da maioridade penal e higienização do centro expandido das grandes cidades. De repente, deram fôlego para a defesa da velha necessidade de se mudar a lei. Numa semana em que a economia mundial se derretia por conta da irresponsabilidade de banqueiros e especuladores, em que a muito custo um ditador sírio fazia a segunda milésima vítima fatal e a fome na Somália deixava um saldo de 20 mil crianças mortas, só se falava em outra coisa nas rodas de conversas das famílias paulistanas.
O perigo, de repente, era a gangue das meninas. E a revolta era justamente causada pelo flagrante da mãe de uma delas, que lamentava que as meninas, recém-detidas, haviam sido ingênuas o suficiente para voltar ao local do crime onde já estavam “marcadas”. A instrução foi a brecha para que meio mundo tirasse o pó do discurso sobre a necessidade de se degolar a mãe, as filhas, o pai ausente, os assistentes sociais e a polícia “que não prende, não me protege, não faz jus aos impostos pagos” e toda a baboseira que se diz em tempos de pavor coletivo.
No auge da revolta, sobrou até para duas jornalistas do portal iG que, durante 40 dias – antes, portanto, da “denúncia” –, pesquisaram e conviveram com grupos de meninas para escrever sobre liderança feminina nas ruas. O pecado delas foi mostrar justamente quem eram as vítimas da história. Foi o suficiente para serem acusadas, por leitores desavisados, de apelar para futilidade no intuito de proteger as “marginais”. Estes não foram capazes nem mesmo de esboçar um certo pesar ao ler o depoimento de uma das meninas sobre o alívio que sentia quando eventualmente conseguia simplesmente tomar banho – e afastar o nojinho que as pessoas sentiam ao vê-la, suja e estropiada.
Quando li e ouvi a execração pública da mãe que relevava o crime das filhas, logo lembrei do discurso recorrente dos pais que, ao verem os filhos flagrados em casos de agressões gratuitas (“Puxa, batemos na empregada achando que era prostituta”), acidentes provocados por racha de playboys, crimes passionais e outros delitos, saem berrando em bom português: “Meu filho não é marginal”.
A mesma rua que abre as porta como abrigo às pequenas vítimas da violência doméstica diária é também o palco de crimes diários que não distinguem raça e cor. Nem o furto nem o estupro nem o homicídio cometido por quem não se importa de andar a mil na contramão e atropelar ciclistas ou pedestres com as bênçãos do papai que bancou a gasolina. Ou oferecer suborno a policiais para simplesmente não cumprir a lei.
No caso das ruas, a inclinação ao crime às portas da infância é, quase sempre, patrocinada por adultos que se valem da lei para escapar de uma eventual condenação de um mundo que já os condenou aos pontapés desde o nascimento. Mas a orientação para que os filhos se deem bem a qualquer custo é privilégio de classes: ocorre antes dos pequenos furtos pelas ruas e também debaixo das abas dos “humanos direitos”. A diferença é que, no Brasil, ninguém coloca a mão na carteira quando vê um desses pelas ruas.
(Carta Capital – 15/08/2011)

Meninas de Rua

Já era bem chocante saber que meninas -- às vezes com 10 ou 11 anos de idade -- andavam promovendo arrastões nas ruas da cidade. A gangue, que contava com 15 crianças, andou fazendo misérias na Vila Mariana, zona sul de São Paulo.
De furtos em semáforos a invasões de lojas, faz tempo que essas meninas não brincam de boneca --se é que puderam fazer isso alguma vez na vida.
Mas o noticiário não para por aí. Chegou, finalmente, até as mães das infelizes. Quatro mulheres foram presas nesta quinta-feira acusadas de "abandono de incapaz".
O diálogo entre uma delas e a filha delinquente foi registrado por repórteres. Vale como retrato de uma miséria que não é só material, mas também humana e ética, no sentido mais amplo. "Você foi voltar no mesmo local do crime?" -- perguntou a mãe à criança apanhada em flagrante. "Você é uma besta mesmo”.
Não dá para saber se era uma repreensão do ponto de vista técnico-profissional -- com a mãe achando normal se a filha fosse mais esperta na hora de cometer seus delitos -- ou se havia nessa frase o desespero de quem já abandonou qualquer expectativa de que a menina se emendasse.
Para a polícia, as mães disseram que já não sabem o que fazer com as filhas. Dizem que elas fogem da escola para assaltar. Alguém mais desconfiado pode perguntar se as meninas não estão sendo estimuladas ao crime por adultos que se beneficiam da impunidade.
Na cidade mais rica do país, onde os apelos do consumo não faltam, falta responsabilidade de todos os lados -- dos pais, do governo, da sociedade. É a rua que toma conta delas, e elas tomam conta da rua.
(Agora São Paulo – 15/08/2011)

Novas meninas de rua assumem vaidade e liderança
Primeira reportagem da série especial sobre as novas meninas de rua mostra mudanças no perfil das garotas 

Enquanto um grupo de meninas de rua de São Paulo virava notícia nacional por furtar e assaltar lojas do bairro da zona sul paulistana chamado Vila Mariana, no centro da cidade Bruna pintava as unhas no estilo francesinha, Bia alisava os cabelos com chapinha com ajuda de um creme especial, Silvia passava batom rosa e pensava se finalmente beijaria na boca.
Os produtos de beleza eram usados a céu aberto e ajudavam a transformar a aparência de três das 6.800 garotas que dormem, vivem e sobrevivem ao relento, conforme contabilizou o censo de meninos e meninas de rua feito em 75 cidades brasileiras e divulgado há três meses pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda).
Durante os últimos 40 dias, o iG acompanhou a rotina de Bruna, Bia, Silvia e outras 11 “meninas do asfalto” da região central de São Paulo para tentar desvendar quem são estas garotas espalhadas pela cidade. Esta é a primeira reportagem da série, que continua nos próximos dias.
O salto alto e as roupas que imitam peças de grifes famosas chamam a atenção de especialistas e educadores por enfeitar quem não tem casa. Dentro da complexidade de facetas destas meninas, em meio ao furto, uso compulsivo de drogas, ingenuidade e realidade perversa, eles notaram também uma outra mudança: a ascensão feminina à liderança dos grupos de crianças de rua. 

Para Elder Cerqueira, coordenador de Psicologia Social da Universidade Federal do Sergipe e pesquisador da situação de vulnerabilidade das crianças brasileiras, houve mudanças nos últimos dois anos, e a menina de rua hoje pode desempenhar três papéis diferentes. Um deles, já bem antigo, é quando ela se masculiniza – com cabelos curtinhos e bermudões – para se proteger. “Não é reflexo de uma possível homossexualidade, mas uma ferramenta de inserção em um grupo já quase totalmente masculino”, pontua Cerqueira.
Outra possibilidade é usar a própria sexualidade como mecanismo de aceitação. “Ser a namoradinha de um dos garotos ou uma espécie de objeto sexual que passa de mão em mão entre os meninos da turma”, explica. A terceira função, mais recente e ainda minoritária, é a de líder do grupo. Caso das meninas da Vila Mariana e daquelas que a reportagem acompanhou no centro.
Em um grupo de meninos e meninas de rua diferente, Manuela, 26 – que após quase duas décadas na rua perdeu a maior parte dos dentes e acumula escaras na pele – ainda guarda características femininas que fizeram dela uma líder e a ajudam permanecer no “poder”. São características também de Marina e Bia. Elas, ao mesmo tempo em que expressam cuidado materno com os mais novos, também são responsáveis por fornecer cola, tíner e maconha às crianças. Os entorpecentes misturados à proteção fazem os filhos fictícios não quererem sair de seus domínios.
Das 14 meninas mulheres acompanhadas pelo iG, 3 foram apreendidas na Fundação Casa (Marina, Bruna e Silvia) por furtarem refrigerantes; uma delas nunca mais apareceu no grupo; uma quarta abandonou o emprego e as outras podem estar por aí, brincando e retocando o batom.
(Fernanda Aranda e Heloisa Ferreira, iG São Paulo, 13/08/2011)

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