sexta-feira, 23 de março de 2012

Aprendendo a contextualizar

Todo texto tem uma história - muitas vezes, tenho dificuldade para "abrir" a cabeça dos alunos para receberem bem textos escritos em outras épocas, com distintas linguagens, que aportam diversidade cultural. Para fundamentar a tese da importância do  entendimento do contexto, sempre recorro a músicas escritas na época da ditadura. Creio que é uma boa maneira de mostrar o quanto um texto pode enganar, fazer giros de sentido, iludir um interlocutor que não conheça minimamente alguns dados sobre a época em que a canção foi redatada.

Um bom exemplo é a música "Carimbador maluco", de Raul Seixas. Escrita para criticar a ditadura, é claramente inspirada em um texto de um dos ícones do anarquismo, Pierre Joseph Proudhon:

Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, parqueado, endoutrinado, predicado, controlado, calculado, apreciado, censurado, comandado, por seres que não têm o título, nem a ciência, nem a virtude (...).
Ser governado é ser, a cada operação, a cada transação, a cada movimento, notado, registrado, recenseado, tarifado, selado, medido, cotado, avaliado, patentiado, licenciado, autorizado, rotulado, admoestado, impedido, reformado, reenviado, corrigido. (...). 

Para fazer a comparação, basta prestar um pouco de atenção à letra da música. Ainda que, de certa forma, a canção tenha se vendido posteriormente ao sistema que criticava (tendo sido aceita no seu sentido mais superficial, de música infantil, para animar um programa global), é um bom exemplo de como um texto aparentemente inocente pode fazer uma profunda crítica à sociedade.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Questionando os clichês - Jogo tabu

Sou defensora ardorosa dos jogos em sala de aula - contudo, só passei a militar pela causa depois que comecei a dar aulas de espanhol. Antes, optava por explicar a matéria com uma ou outra piada, mas nunca me arriscava a deixar espaço demais para o lúdico - afinal, sempre há tanto conteúdo a passar, não é mesmo? E como controlar alunos entretidos com uma diversão muito maior do que a que você pode oferecer sozinha?

Confesso que, no campo das aulas de Língua Portuguesa, ainda tenho muito que aprender nesta área... mas, pelos poucos testes que fiz, consegui descobrir que 5 minutos de uma dinâmica diferenciada podem fornecer muito mais conteúdo do que 5 horas de aulas iguais - para os dois lados.

Vamos começar com algo simples, que não exige mais do que alguns minutos da aula (ainda que a atividade possa ser estendida - fica ao gosto do professor). Em uma aula de redação, o mais comum é receber zilhões de textos falando as mesmas coisas, escritos da mesma (única) forma. Os sistema educacional molda nossos alunos a serem todos iguais - não se trata, portanto, de exigir criatividade, e sim personalidade. Imaginemos que nosso objetivo é formar alunos que consigam se expressar de uma maneira singular, fugindo do clichê e do senso comum.



O primeiro passo neste processo é mostrar aos estudantes o quanto eles se repetem. Por mais que tentemos demonstrar por A + B que os seus textos não têm voz própria, nada como uma boa dinâmica para concretizar este argumento. É aí que entra o "Tabu" (também conhecido como "Palavras Proibidas"). Este jogo consiste em uma palavra que precisa ser adivinhada. A regra? O jogador não pode dizer nenhuma das 5 palavras que vêm na cartela sorteada para descrever o termo.

Por exemplo: sorteamos um aluno ao acaso. Ele tem de fazer o restante da sala adivinhar a palavra "maçã", sem mímica e sem falar "Eva", "Branca de Neve", "fruta", "Apple", "pecado". Não é uma tarefa difícil (poderíamos dizer, por exemplo: "A companheira de Adão comeu uma e foi expulsa do Paraíso"), mas geralmente os alunos travam. E aí conseguimos demonstrar o quão necessário é buscar alternativas textuais, fugir do clichê, inventar. Simples assim.

Neste link http://www.ilhadotabuleiro.com.br/jogos/tabu/arquivos é possível baixar o jogo  e as regras gratuitamente. Basta se cadastrar. 



quarta-feira, 21 de março de 2012

Esquema de Correção de Textos

Trabalho há 8 anos corrigindo textos - por sorte, como faço parte de um projeto comunitário, sempre posso recorrer a alguns amigos (graduandos em Letras) para me ajudar nesta tarefa não tão fácil. Afinal, como iria fornecer uma correção de qualidade se não fosse contando com o apoio de muitas pessoas?

Sempre parti do pressuposto que apenas colocar um número na folha entregue pelo aluno desvaloriza o trabalho de ambos os lados do processo educativo. O professor reduz sua capacidade de escrita a rabiscar um 7, um D-, um M.S. O aluno, por sua vez, se vê diante de uma nota não justificada, não explicada - ora, e não é logo o professor de português que lhe pede que sempre argumente ao invés de simplesmente fornecer dados vazios de conteúdo?

Se o aluno escreve um texto ao professor, o professor deve escrever um texto ao aluno - redação é diálogo, debate de ideias. Redação é escrita e não números, que classificam nossos estudantes em um ranking sem critérios definidos. E contudo, o dilema: como escrever uma redação para cada um de meus 100, 200, 700 alunos?

Antes, pensava na hipótese de um sorteio: a cada semana, todos alunos produziriam um texto, mas apenas alguns seriam escolhidos para a correção detalhada. Logicamente haveria revezamento, para que todos pudessem ser contemplados até o final do ano letivo. Apesar de ser uma solução, quantas redações bem corrigidas conseguiria entregar a cada estudante? Duas ou três correções anuais seriam suficientes para mudar a concepção de escrita dos alunos?

Após muita pesquisa, encontrei alguma luz no fim do túnel - se ainda não é nada muito luminoso, ao menos não é um trem vindo em direção contrária. No texto "A influência do feedback escrito pelo professor nos processos de revisão de seus alunos de escritura em inglês como língua estrangeira" (não, não entendo nada de inglês) há um esquema de correção pronto. Simples assim. Xerocamos 1 folha por aluno a cada começo de ano e vamos marcando em suas redações os deslizes de escrita com símbolos. O aluno vai, vê a anotação (ex.: 47) e procura seu significado no esquema de correção pronto (47 = Este período está excessivamente longo, o que atrapalha a compreensão do texto. Procure escrever frases menores, porém mais claras e coerentes.).

Usando o esquema de correção há algum tempo, minha maior dificuldade ainda é memorizar os números correspondentes a cada problema de escrita. No entanto, isto é apenas uma questão de tempo; dentro de alguns meses já saberei de cor e salteado que número indicar quando falta coesão, quando há redundância, quando o pronome não está bem colocado. E nada paga o preço de ver tantos números - com significado, com argumento, com diálogo - nas redações dos alunos.

Link para o texto:

Meu esquema próprio para correções:

Este é um esquema fixo de correção de textos, que busca facilitar o trabalho de avaliação, sem prejudicar sua qualidade. Considere aplicáveis ao seu texto apenas os itens que foram assinalados com caneta colorida na sua redação.

1. O título do seu texto é muito vago e generalizante.

2. O título não corresponde ao conteúdo do texto, criando falsas expectativas no leitor.

3. Por que o seu texto não tem título?

4. Você não preenche o objetivo do seu texto. Ao contrário, você cria expectativas no seu leitor que não são atendidas ao longo da redação.

5. Você apresenta problemas de interlocução. Parece que você não tem o leitor ideal da sua redação em mente (lembre-se que cada gênero textual exige um tipo específico de interlocutor).

6. Esta ideia precisa ser desenvolvida. Você não dá informações suficientes ao seu leitor.

7. Alguma informação importante foi esquecida.

8. A informação incluída é irrelevante, distraindo o seu leitor do conteúdo principal do texto.

9. A informação fornecida é errada.

10. Isto parece ambíguo. O leitor pode interpretar mal a informação dada.

11. Evite as repetições de termos. Empregue sinônimos ou reestruture as frases de forma a eliminar as redundâncias.

12. Eu vejo alguma incoerência nesta sentença.

13. Esta sentença não está clara. O leitor não é capaz de compreendê-la.

14. O seu texto é circular; as ideias não se desenvolvem satisfatoriamente ao longo da redação.

15. Você se refere a informações novas como se elas já tivessem sido apresentadas.

16. Seu texto não tem um parágrafo introdutório, no qual você deveria apresentar o tópico e as linhas gerais do texto.

17. Seu texto não tem um parágrafo conclusivo, no qual você deveria avaliar, sumarizar e/ou concluir suas ideias.

18. Você não usa conectivos para integrar estas frases/sentenças.

19. Você não usa conectivos para integrar estes parágrafos.

20. Você usou um conectivo errado na junção destas sentenças.

21. Há falta de transição entre estas diferentes ideias.

22. Você introduz ideias diferentes em um mesmo parágrafo.

23. Uma vez que as ideias são relacionadas, não há razão para diferentes parágrafos.

24. As ideias não estão bem organizadas. Não está claro no seu texto quais são os pontos principais e os secundários.

25. Esta sentença não está bem estruturada.

26. O vocabulário utilizado é muito simplista; procure ampliar suas referências léxicas.

27. A escolha de vocabulário não é adequada ao sentido desejado.

28. A ordem das palavras nesta sentença não está correta.

29. O tempo verbal usado está errado.

30. Você apresenta muita variação entre os tempos verbais ao longo do seu texto, impedindo o leitor de entender a ordem dos acontecimentos na redação.

31. A forma de verbo usada está incorreta.

32. Há problema(s) de concordância verbal nesta sentença.

33. Há problema(s) de concordância nominal nesta sentença.

34. Há excesso de pontuação neste trecho.

35.Você apresenta problema(s) de pontuação nesta parte do texto.

36. Há problema(s) de ortografia neste segmento. Pesquise a grafia correta dos termos assinalados.

37. O pronome utilizado não está adequado.

38. O pronome está inserido no lugar errado.

39. Nesta parte do texto, você apresenta problemas com o uso de preposições.

40. O advérbio usado não é adequado.

41. O artigo usado não está correto.

42. O sujeito desta sentença não está claro.

43. Em algum lugar desta sentença, você esqueceu de usar um verbo.

44. Suas maiúsculas e minúsculas não estão sendo empregadas nos contextos adequados.

45. O seu texto não tem parágrafos (ou o espaço da paragrafação não é visível).

46. A letra está ilegível.

47. Este período está excessivamente longo, o que atrapalha a compreensão do texto. Procure escrever frases menores, porém mais claras e coerentes.