terça-feira, 10 de abril de 2012

Banco de Questões - Nova Ortografia


FGV 2010

Texto para as questões 1 e 2

A fôrma e as ideias

Restringe-se quase apenas à classe dos linguistas a expectativa pela estreia, hoje, de mais uma reforma ortográfica no Brasil. As mudanças por ora são ignoradas pela maioria da população brasileira e terão impacto reduzido no cotidiano: a cada mil palavras utilizadas, cinco serão alteradas.
Pensado para unificar a linguagem escrita nos países lusófonos, o Acordo Ortográfico produz muito barulho por quase nada. Seu impacto estará concentrado na burocracia diplomática – não será mais necessário “traduzir” documentos para as diversas grafias nacionais do idioma – e no mercado editorial, que vai movimentar-se nos próximos anos para adaptar livros e dicionários ao novo padrão.
A ortografia que está sendo substituída não constitui barreira para a compreensão de textos escritos no padrão de outro país. Dificuldades maiores são oferecidas pela construção das frases e pelo vocabulário mobilizado nas diversas regiões em que se fala o idioma.
Somente a experiência da leitura sistemática e a exposição constante a textos e tradições
nacionais, regionais e históricas diversas podem levar à superação desses obstáculos. A nova ortografia altera algumas fôrmas das ideias, jamais seu conteúdo.
Folha de S. Paulo, 01/01/2009. Adaptado.

1. Indique, no quadro, as características predominantes do texto, quanto aos aspectos
relacionados:

Conteúdo Estilo Gênero
A informativo prolixo reportagem
B científico complexo artigo científico
C expositivo literário crônica
D opinativo conciso editorial
E irreverente coloquial carta de leitor

Resposta: d

2. Segundo o texto, as mudanças propiciadas pelo Acordo Ortográfico afetam, de maneira mais evidente, além do mercado editorial, a
A comunicação oficial entre os países de língua portuguesa.
B sintaxe e o léxico de cada dialeto do português.
C leitura das principais obras do mundo lusófono.
D teoria linguística formulada pelos cientistas da língua.
E pronúncia das pessoas que têm pouca escolaridade.

Resposta: a

INSPER 2009

Utilize o texto abaixo para responder aos testes de 3 a 5.
Nova ortografia, velhos dizeres
É oficial: entrou em vigor a nova ortografia. Quer dizer: mais ou menos em vigor.
É a única do mundo legislada. Os brasileiros temos pouca intimidade com as vigorações. Há sempre um amanhã, um depois de amanhã e, graças a Deus, um Dia de São Nunca, as calendas (ver dizeres populares em extinção).
Depois de anos caitituando Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau (olha o hífen!), Moçambique e Timor-Leste (eu disse que é pra olhar o hífen!), para não falar em Portugal, que andou pisando na bola (ver dizeres em extinção), o Brasil finalmente, mediante quatro decretos promulgados, assinados por presidente da república, conseguiu fazer com que uns bons 250 milhões de pessoas escrevam de forma idêntica.
Quer dizer: mais ou menos idêntica. Primeiro, porque dessas 250 milhões de pessoas apenas uns 15% são vagamente alfabetizadas. Desses 15%, pelo menos 10% é de nacionalidade portuguesa. Mas que 15%! É para elas que se legislou. Quer dizer: mais ou menos se legislou. Há dúvidas e indecisões em massa. Principalmente nos meios alfabetizados, por assim dizer.
Porque o hífen isso e o trema aquilo e o acento agudo esse e o circunflexo aquele e pororó, pão duro coisa e tal (ver dizeres populares em extinção).
De certo, sabe-se uma coisa: o decreto-lei para os hífens e seu uso, que entrou em vigor no primeiro dia de janeiro de 2009, tem até 2012, ou 2021, talvez até 3033, para ser adotado à vera (ver dizeres em extinção) entre a chamada CPLP, a digníssima Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, ou os Oito Magníficos Países de Ouro, como são conhecidos nos meios lexicográficos mundiais.
De garantido, pode-se afirmar que essa nova ortografia (quer dizer: mais ou menos um acordo, ou um decreto, ou uma lei) vai dar um dinheirão e muita gente boa vai pegar uma nota preta e sair pela aí (ver dizeres públicos em extinção), pelos países da doce língua de Camões e Paulo Coelho, montada na burra do dinheiro. (...)
(Lessa, Ivan. oglobo.globo.com/mundo/mat/2009/01/02/)

3. Com base no texto, não é correto afirmar que
(a) no trecho “...250 milhões de pessoas escrevam de forma idêntica. Quer dizer: mais ou menos idêntica.”, o autor enfatiza que, no Brasil, um país democrático, os cidadãos são livres para escreverem como querem desde que se comuniquem de forma eficiente.
(b) a falta de uniformidade no uso das regras ortográficas resulta, entre outros fatores, da desinformação e do analfabetismo funcional que ainda atinge parcela significativa da população.
(c) com a ressalva “quer dizer: mais ou menos um acordo, ou um decreto, ou uma lei”, o escritor salienta a indefinição daquilo que foi estabelecido no país acerca das mudanças na língua portuguesa.
(d) com as frases “mais ou menos em vigor” e “...temos pouca intimidade com as vigorações”, o autor ironiza a flexibilidade com que as leis são respeitadas no Brasil.
(e) As mudanças constantes da oralidade são marcadas pelas ressalvas do autor em “ver dizeres populares em extinção”.

4. “ pode-se afirmar que essa nova ortografia (...) vai dar um dinheirão...”. Tendo em vista a sua classificação morfológica, o termo grifado repete-se em:
(a) “... para não falar em Portugal, que andou pisando na bola...”
(b) “...eu disse que é pra olhar o hífen!”
(c) “...decreto-lei para os hífens e seu uso, que entrou em vigor...”
(d) “É para elas que se legislou.”
(e) “...Cale-se, que a regra deve sempre prevalecer! ”

5. Preencha a lacuna com porque, porquê, por que, por quê: “Nunca nos perguntaram _____ cometemos tamanho equívoco. Talvez _____ não quisessem ouvir a verdade. Os _____ doem às vezes.”
(a) por que, porque, porquês
(b) porque, porque, porquês
(c) por que, por que, por quês
(d) porquê, por que, porquês
(e) porque, porque, por quês

6. A mesma figura de linguagem presente em “Os brasileiros temos pouca intimidade com as vigorações.” repete-se em:
(a) “Nova ortografia, velhos dizeres.”
(b) “Brasília é uma estrela espatifada.”
(c) “O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford.”
(d) “Coisa curiosa é aquela gente! Divertem-se com tão pouco...”
(e) “Quer dizer: mais ou menos idêntica”.


UNICAMP 2009

7. Reportagem da Folha de São Paulo informa que o presidente do Brasil assinou decreto estabelecendo prazos para o país colocar em prática o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que unifica a ortografia nos países de língua portuguesa. Na matéria, o seguinte quadro comparativo mostra alterações na ortografia estabelecidas em diferentes datas:

Após as reformas de 1931 e 1943: Êles estão tranqüilos, porque provàvelmente não crêem em fantasmas.
Após as alterações de 1971: Eles estão tranqüilos, porque provavelmente não crêem em
fantasmas.
Após o novo acordo, a vigorar a partir de janeiro de 2009: Eles estão tranquilos, porque provavelmente não creem em fantasmas.

Sobre o acordo, a reportagem ainda informa:

As regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que entram em vigor no Brasil a partir de janeiro de 2009, vão afetar principalmente o uso dos acentos agudo e circunflexo, do trema e do hífen. Cuidado: segundo elas, você não poderá mais dizer que foi mordido por uma jibóia, e sim por uma jiboia. (...)
(Adaptado de E. Simões, “Que língua é essa?”. Folha de S.Paulo, Ilustrada, p. 1, 28/09/2008.)

a) O excerto acima supõe que alterações ortográficas modifiquem o modo de falar uma língua. Mostre a palavra utilizada que permite essa interpretação. Levando-se em consideração o quadro comparativo das mudanças ortográficas e a suposição expressa no excerto, explique o equívoco dessa suposição.

Ainda sobre a reforma ortográfica, Diogo Mainardi escreveu o seguinte:
Eu sou um ardoroso defensor da reforma ortográfica. A perspectiva de ser lido em Bafatá, no interior da Guiné-Bissau, da mesma maneira que sou lido em Carinhanha, no interior da Bahia, me enche de entusiasmo. Eu sempre soube que a maior barreira para o meu sucesso em Bafatá era o C mudo [como em facto na ortografia de Portugal] (...)
(D. Mainardi, “Uma reforma mais radical”. Revista VEJA, p. 129, 8/10/2008.)

b) O excerto acima apresenta uma ironia. Em que consiste essa ironia? Justifique.


UNICAMP 2010


a) Qual é o pressuposto da personagem que defende o acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa? Por que esse pressuposto é inadequado?
b) Explique como, na tira ao lado, esse pressuposto é quebrado.



 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Roteiro de aula - Sentimento do mundo e Legião Urbana

Ensinar a interpretar poesia é a prova de fogo de todo professor de português. Afinal, se ensinar a ler o que está na superfície já exige esforço, quem dirá explicar o que está nas entrelinhas. Para nossa sorte, contudo, nossos alunos vivem rodeados de poesia - bem como eu, você, o vizinho da esquina e o porteiro do prédio. Uma das poucas unanimidades humanas (depois do chocolate e do prazer de tirar um sapato apertado) é escutar músicas. Portanto, voilà: talvez a melhor maneira de aproximar os estudantes da poesia seja interpretando a poesia que já faz parte do cotidiano deles.

Comecemos propondo uma intertextualidade entre um dos livros do temido vestibular ("Sentimento do mundo", do Drummond) e algumas músicas do Legião Urbana.

1965 (Legião Urbana)

Vou passar
Quero ver
Volta aqui
Vem você
Como foi
Nem sentiu
Se era falso
Ou fevereiro
Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui.
Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão
Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão
Não se esqueça
Temos sorte
E agora é aqui
Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem contra o mal
E você de que lado está?
Estou do lado do bem
E você de que lado está?
Estou do lado do bem.
Com a luz e com os anjos
Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos revell
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo pra cima
Pra cima
Pra cima



A música do Legião é o retrato de uma geração ("1965") vítima de violência e impotente contra seus opressores ("Cortaram meus braços/ cortaram minhas mãos/ cortaram minhas pernas"). Trata-se também de uma geração alienada pelo consumismo ("Eu tenho Hanna-Barbera") e que acredita nas mentiras do sistema ("O Brasil é o país do futuro").

Elegia 1938 (Carlos Drummond de Andrade)

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações no encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas de dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
               


Assim como a música do Legião, o poema de Drummond é o retrato de uma geração ("Elegia 1938"), oprimida pelo sistema ("Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina") e impotente. É possível fazer um link também com o atentado contra as Torres Gêmeas, tornando o poema ainda mais próximo dos alunos.

Música de trabalho (Legião Urbana)

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho
É só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado a miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos


 
O operário no mar (Carlos Drummond de Andrade)

Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na Câmara dos Deputados, o líder oposicionista vociferando. Caminha no campo e apenas repara que ali corre água, que mais adiante faz calor. Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos. Tenho vergonha e vontade de encará-lo: uma fascinação quase me obriga a pular a janela, a cair em frente dele, sustar-lhe a marcha, pelo menos implorar lhe que suste a marcha. Agora está caminhando no mar. Eu pensava que isso fosse privilégio de alguns santos e de navios. Mas não há nenhuma santidade no operário, e não vejo rodas nem hélices no seu corpo, aparentemente banal. Sinto que o mar se acovardou e deixou-o passar. Onde estão nossos exércitos que não impediram o milagre? Mas agora vejo que o operário está cansado e que se molhou, não muito, mas se molhou, e peixes escorrem de suas mãos. Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso úmido. A palidez e confusão do seu rosto são a própria tarde que se decompõe. Daqui a um minuto será noite e estaremos irremediavelmente separados pelas circunstâncias atmosféricas, eu em terra firme, ele no meio do mar. Único e precário agente de ligação entre nós, seu sorriso cada vez mais frio atravessa as grandes massas líquidas, choca-se contra as formações salinas, as fortalezas da costa, as medusas, atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me uma esperança de compreensão. Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?

Nestes dois últimos textos percebe-se a mesma temática. Entretanto, enquanto o Legião fala usando a voz do operário, Drummond discursa sobre ele. Em ambos os textos, o trabalhador é retratado como alguém sem muita consciência política ("Quem sabe esquecer um pouco de tudo o que não sabemos"; "O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na Câmara dos Deputados, o líder oposicionista vociferando. Caminha no campo e apenas repara que ali corre água, que mais adiante faz calor.") e estafado pelo trabalho duro.

Quando o sol  bater na janela do teu quarto (Legião Urbana)

Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só,
Porque esperar
Se podemos começar
Tudo de novo?
Agora mesmo,
A humanidade é desumana
Mas ainda temos chance,
O sol nasce pra todos,
Só não sabe quem não quer,
Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só,
Até bem pouco tempo atrás,
Poderíamos mudar o mundo,
Quem roubou nossa coragem?
Tudo é dor,
E toda dor vem do desejo,
De não sentimos dor,
Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só.



A noite dissolve os homens (Drummond)

A noite
desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.


Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.

As figuras da luz e da escuridão são centrais em "Sentimento do Mundo" e boa parte da produção poética de Drummond. Neste último poema, ainda que não haja facilitação da realidade, sempre sofrida, o tom da esperança predomina ao final. Não se sabe ao certo quando a esperança virá, assim como é indefinido este momento de "quando o sol bater na janela do teu quarto". Entretanto, ainda que a esperança seja apenas vislumbrada, ambos os textos são uma afirmação de sua existência.







quarta-feira, 4 de abril de 2012

Ser professor de português


(Autor anônimo)

01 - Professora de português não nasce; deriva-se.
02 - Professora de português não cresce; vive gradações.
03 - Professora de português não se movimenta; flexiona-se.
04 - Professora de português não é filha de mãe solteira; resulta de uma derivação imprópria.
05 - Professora de português não tem família; tem parênteses.
06 - Professora de português não envelhece; sofre anacronismo.
07 - Professora de português não vê tv; analisa o enredo de uma novela.
08 - Professora de português não tem dor aguda; tem crônica.
09 - Professora de português não anda; transita.
10 - Professora de português não conversa; produz texto oral.
11 - Professora de português não fala palavrão; profere verbos defectivos.
12 - Professora de português não se corta; faz hiato.
13 - Professora de português não grita; usa vocativos.
14 - Professora de português não dramatiza; declama com emotividade.
15 - Professora de português não se contradiz; tem problemas de concordância.
16 - Professora de português não discute; recorre a adversativos.
17 - Professora de português não exagera; usa hipérboles.
18 - Professora de português não compra supérfluos; possui termos acessórios.
19 - Professora de português não fofoca; pratica discurso indireto.
20 - Professora de português não é frágil; é átona.
21 - Professora de português não fala demais; usa pleonasmos.
22 - Professora de português não se apaixona; cria coesão contextual.
23 - Professora de português não tem casos de amor; faz romances.
24 - Professora de português não se casa; conjuga-se.
25 - Professora de português não depende de ninguém; relaciona-se a períodos por subordinação.
26 - Professora de português não tem filhos; gera cognatos.
27 - Professora de português não tem passado; tem pretérito mais-que-perfeito.
28 - Professora de português não rompe um relacionamento; abrevia-o.
29 - Professora de português não foge a regras; vale-se de exceções.
30 - Professora de português não é autoritária; possui voz ativa.
31 - Professora de português não é exigente; adota a norma padrão.
32 - Professora de português não erra; recorre a licença poética. 

Morfologia - Banco de Questões


FGV 2002

Assinale a alternativa na qual QUE tem a mesma classificação morfológica que na frase:

"Elas disseram que não viriam."

a) Veja o livro que comprei.
b) Que conversa é essa?!
c) Vocês é que mandam.
d) Peço que voltem logo.
e) Tudo temos que fazer.

Resposta: d

PUC 1995

Há, em Língua Portuguesa, algumas palavras que admitem ou não flexão de número (singular/plural), dependendo de seu valor morfológico.

No texto em questão, aparece uma dessas palavras:

"(...) BASTANTE experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança..."

Considerando a possibilidade de flexão ou não da palavra, em função de seus diferentes empregos, assinale a alternativa incorreta:
a) Bastantes verdades experimentei anos depois do aviso que meu pai me deu.
b) Meu pai me falou bastante sobre verdades que eu encontraria anos depois.
c) Bastante tempo depois, eu encontraria muitas das verdades anunciadas no aviso de meu pai.
d) Bastantes anos depois, eu experimentaria as verdades do aviso de meu pai.
e) Anos depois, bastantes verdadeiros se tornaram também outros avisos de meu pai.

Resposta: e
 
UFJF 2003

Apresentamos, a seguir, considerações sobre o processo de formação de algumas palavras da língua portuguesa. Assinale a afirmativa INCORRETA:
a) O neologismo "BLOGUEIRA", embora tenha sua base de formação a partir de um empréstimo lingüístico, segue um padrão morfológico e ortográfico característico da língua portuguesa.
b) A palavra "BLOGUEIRA" comprova que a apropriação de estrangeirismos é um mecanismo de empobrecimento do processo de formação de palavras do português.
c) A exemplo de "BLOGUEIRA", palavras como "FUNQUEIRA" e "MARQUETEIRA" revelam mudanças, por influência de estrangeirismos, que contribuem para o enriquecimento do português.
d) O sufixo (-ANTE) em "cadeirANTE" designa uma ação, assim como em "acompanhANTE", mas sua anexação se dá a radicais de palavras de classes morfológicas distintas.
e) A formação da palavra "CADEIRANTE", a exemplo do que ocorre em "FICANTE", "FEIRANTE" e "ESTRESSANTE", atesta um mecanismo altamente produtivo de construção lexical em português.

Resposta: b
 
UFRJ 2001

Camelôs
Manuel Bandeira
Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam boxe
A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma
Alegria das calçadas.
Uns falam pelos cotovelos:
- “O cavalheiro chega em casa e diz: ‘Meu filho, vai buscar um pedaço
de banana para eu acender o charuto.’ Naturalmente o menino pensará:
‘Papai está malu...’”
Outros, coitados, têm a língua atada.
Todos, porém, sabem mexer nos cordéis com o tino ingênuo de demiurgos
de inutilidades.
E ensinam no tumulto das ruas os mitos heróicos da meninice...
E dão aos homens que passam preocupados ou tristes uma lição de in-fância.
(In: Libertinagem. Seleta em prosa e verso. (Org. Emanuel de Moraes), Rio de
Janeiro: José Olympio, 1971, p.131).

Identifique dois recursos predominantes na caracterização dos núcleos do complemento do verbo VENDER, que se encontra no segundo verso do poema de Bandeira: um de natureza morfológica e um de natureza sintática. Diga quais são esses recursos.

Unesp 2003

Na morte dos rios
Desde que no Alto Sertão um rio seca,
a vegetação em volta, embora de unhas,
embora sabres, intratável e agressiva,
faz alto à beira daquele leito tumba.
Faz alto à agressão nata: jamais ocupa
o rio de ossos areia, de areia múmia.
(João Cabral de Melo Neto)

João Cabral de Melo Neto pretendeu criar uma linguagem para seus poemas que se afastasse um pouco da linguagem usual, por meio de pequenos desvios. Para isso, empregou, às vezes, palavras fora das classes morfológicas a que pertencem.


a) Transcreva os fragmentos em que isso acontece.

b) Identifique a classe original das palavras e a classe em que João Cabral as utilizou em seu poema.


Unicamp 1995

Mario Sergio Cortella, em sua coluna mensal "Outras Idéias" escreve:

(...) reconheça-se: a maior contribuição de Colombo não foi ter colocado um ovo em pé ou ter aportado por aqui depois de singrar mares nunca dantes navegados. Colombo precisa ser lembrado como a pessoa que permitiu a nós, falantes do inglês, do francês ou do português, que tivéssemos contato com uma língua que, do México até o extremo sul da América, é capaz de nos ensinar a dizer "nosotros" em vez de apenas "we", "nous", "nós", afastando a arrogante postura do "nós" de um lado e do "vocês" do outro. Pode parecer pouco, mas "nós" é quase barreira que separa, enquanto "nosotros" exige perceber uma visão de alteridade, isto é, ver o outro como um outro, e não como um estranho. Afinal, quem são os outros de nós mesmos? O mesmo que somos para os outros, ou seja, outros!
(Mario Sergio CortelIa, "Folha de S. Paulo", 9 de outubro de 2003).

O texto acima nos faz pensar na distinção entre um 'nós' inclusivo e um 'nós' excludente.
a) Segundo o excerto, 'nosotros' apresenta um sentido inclusivo. Justifique pela morfologia dessa palavra.
b) "Nós brasileiros falamos português" apresenta um 'nós' excludente. Explique.

 Unicamp 2009

Leia os seguintes artigos do Capítulo VIII do novo Código Civil (Lei no. 10.406, de 10 de janeiro de 2002):

Art. 1.548. É nulo o casamento contraído:
I – pelo enfermo mental sem o necessário discernimento para os atos da vida civil;
II – por infringência de impedimento.
(...)

Art. 1.550. É anulável o casamento:
I – de quem não completou a idade mínima para casar;
(...)
VI – por incompetência da autoridade celebrante.

a) Os enunciados que introduzem os artigos 1.548 e 1.550 têm sentido diferente. Explique essa diferença, comparando, do ponto de vista morfológico, as palavras nulo e anulável.
b) Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001), infringência vem de infringir (violar, transgredir, desrespeitar) + ência. Compare o processo de formação dessa palavra com o de incompetência, indicando eventuais diferenças e semelhanças.


Unicamp 2012

1. Os verbetes apresentados em (II) a seguir trazem significados possíveis para algumas palavras que ocorrem no texto intitulado Bicho Gramático, apresentado em (I).

I II BICHO GRAMÁTICO
Vicente Matheus (1908-1997) foi um dos personagens mais controversos do futebol brasileiro. Esteve à frente do paulista Corinthians em várias ocasiões entre 1959 e 1990. Voluntarioso e falastrão, o uso que fazia da língua portuguesa nem sempre era aquele reconhecido pelos livros. Uma vez, querendo deixar bem claro que o craque do Timão não seria vendido ou emprestado para outro clube, afirmou que “o Sócrates é invendável e imprestável”. Em outro momento, exaltando a versatilidade dos atletas, criou uma pérola da linguística e da zoologia: “Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático”.
(Adaptado de Revista de História da Biblioteca Nacional, jul. 2011, p. 85.)
Invendável: que não se pode vender ou que não se vende com facilidade.
Imprestável: que não tem serventia; inútil.
Aquático: que vive na água ou à sua superfície.
Gramático: que ou o que apresenta melhor rendimento nas corridas em pista de grama (diz-se de cavalo).
(Dicionário HOUAISS (versão digital on line), houaiss.uol.com.br)



a) Descreva o processo de formação das palavras invendável e imprestável e justifique a afirmação segundo a qual o uso que Vicente Matheus fazia da língua portuguesa “nem sempre era aquele reconhecido pelos livros”.
b) Explique por que o texto destaca que Vicente Matheus “criou uma pérola da linguística e da zoologia”.


2. O parágrafo reproduzido abaixo introduz a crônica intitulada Tragédia concretista, de Luís Martins.

O poeta concretista acordou inspirado. Sonhara a noite toda com a namorada. E pensou: lábio, lábia. O lábio em que pensou era o da namorada, a lábia era a própria. Em todo o caso, na pior das hipóteses, já tinha um bom começo de poema. Todavia, cada vez mais obcecado pela lembrança daqueles lábios, achou que podia aproveitar a sua lábia e, provisoriamente desinteressado da poesia pura, resolveu telefonar à criatura amada, na esperança de maiores intimidades e vantagens. Até os poetas concretistas podem ser homens práticos.
(Luís Martins, Tragédia concretista, em As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 132.)

a) Compare lábio e lábia quanto à forma e ao significado. Considerando a especificidade do poeta, justifique a ocorrência dessas duas palavras dentro da crônica.
b) Explique por que a palavra todavia (linha 3) é usada para introduzir um dos enunciados da crônica.


Unifesp 2010

Leia o anúncio.



(Veja, 24.06.2009.)

a) Explique que relação de sentido há entre os termos aperfeiçoamento e perfeição na construção da mensagem publicitária.
b) A palavra aperfeiçoamento deriva do verbo aperfeiçoar,que, por sua vez, deriva de perfeição. Indique o processo de formação usado em cada caso.




Para trabalhar a morfologia


Quem já fez análise morfológica aí levanta a mão! 
Se antigamente o ensino da língua era muito pautado na decoreba, hoje prevalece a ideologia do extremo oposto: tudo deve ser ensinado aos alunos sem exercitar em nada a sua memória. Os professores mais moderninhos têm extrema aversão à análise sintática, morfológica... e os de matemática, até à inofensiva tabuada. Por mais que, na teoria, seja uma ideia super simpática ensinar sem cobrar nenhuma memorização... em algum momento (concurso público, vestibulares) os terríveis nomes que deixamos de exigir na ponta da língua (desinência, vogal temática etc.) serão exigidos. Portanto, que prevaleça o bom senso... e a abordagem diferenciada e divertida dos temas.


Para trabalhar com morfologia, por exemplo, há vários textos que circulam na internet que exploram as possibilidades de formação das palavras. Vale a pena conferir:
Haurélho

Diabetes........................Dançarinas do diabo

Abismado...................Aquele que caiu num abismo

Pressupor.........................Colocar preço em algo

Missão.............................Missa prolongada

Padrão...........................Padre muito alto

Estouro...........................Touro que virou boi

Democracia................Sistema de governo do inferno

Barracão..................Proibe a entrada de cachorros

Homossexual..................Sabão para lavar as partes Intimas

Ministério........................Pequeno aparelho de som

Edifi­cio............................Antônimo de 'É  de fácil

Detergente......................Ato de prender humanos

Armarinho.......................Vento que vem do mar

Eficiência..................Estudo das propriedades do 'F'

Conversão......................Papo prolongado

Barganhar...................Receber de herança de um bar

Fluxograma.............Direção em que cresce o capim

Halogênio......................Cumprimento a um gênio

Expedidor.......................Antigo mendigo

Luz solar......................Sapato com luz na sola

Cleptomaníaco...............Fã de Eric Clapton

Tripulante.......................Especialista em salto triplo

Aspirado........................Carta de baralho maluca

Coitado..........................Ví­tima de coito

Cerveja........................O sonho de toda revista

Regime militar..................Dieta feita no exérrcito

Bimestre..................Mestre em duas artes marciais

Caçador.........................Quem procura ter dor

Volátil..........................Avisa ao tio que vai lá

Assaltante......................Um 'A' que salta

Determine................Prender a namorada do Mickey

Pornográfico...............O mesmo que por no desenho

Coordenada...................Que não tem cor

Presidiário.......................Que vai preso todos os dias

Ratificar.........................Tornar-se um rato

Suburbanos................Habitantes de túneis do metrô

Violentamente..................Viu bem devagar

O que é, o que é

Qual é a comida que liga e desliga? O Strog-ON-OFF.
Qual o vinho que não tem álcool? Ovinho de Codorna.
Como o elétron atende ao telefone? Próton!
O que é um ponto marrom no pulmão? Uma brownquite.
Por que as estrelas não fazem miau? Por que Astro-no-mia.
Por que a vaca foi para o espaço? Para se encontrar com o vácuo.